Sem cair em muitos generalismos, dá pra dizer que muitas histórias contadas em videogame sempre tem como figura principal um personagem herói, prestes a viver uma aventura para resolver um problema que coloca muita coisa em risco, como a morte de alguém importante ou salvar o mundo de uma grande catástrofe. Provações, desafios, perdas e descobertas fazem parte não só das tramas de jogos, mas de muitas e muitas tramas incríveis, que ultrapassaram gerações e ainda são contadas até hoje.

O que não é necessariamente um problema, certo? O fato do Mario ir salvar a princesa pela milésima vez não tira o fato de que isso vai ser o começo de um jogo fenomenal. Não é porque metade dos RPGs medievais que existem consistem em um grupo padrão de Dungeons & Dragons procurando sete orbes mágicos pra salvar o mundo que boas histórias e bons jogos não possam surgir neste meio.

Sobreviver a estes últimos meses no mundo real já tem sido um desafio e tanto, contando todas as crises que o Brasil está passando simultaneamente, e não à toa os videogames foram uma das válvulas de escape que eu usei pra passar pelos dias difíceis. Por mais que eu goste de ser herói apertando meia dúzia de botões, eu comecei a perceber que eu tava me interessando por coisas que só… não faziam isso? Eu não sei se era a ansiedade e o medo destes meses ou outra coisa, mas tinha dias que eu só não queria salvar o mundo.

Eu sei que vários jogos podem trazer esse sentimento: jogos de puzzle abstrato como Tetris podem ser um ótimo e calmo passatempo, e sandboxes como Minecraft ou Terraria permitem que você construa o seu próprio caminho naquele mundo. Mas não é exatamente disso que eu quero falar: esse texto é pra falar sobre histórias simples, sem muitas promessas, mas que em momentos difíceis aqueceram o meu coração e eu definitivamente quero ver mais disso no futuro. Até porque eu acho que vou precisar (e talvez mais gente também precise).

Uma história sobre mudanças

O jogo que me inspirou a escrever esse texto foi Unpacking, lançado este ano pelo estúdio australiano Witch Beam e publicado pela Humble Games. Eu lembro de conhecer esse jogo por algum GIF em um tweet aleatório e a sua premissa não poderia ser mais peculiar: um jogo de puzzle sobre fazer mudanças, tirando coisas de caixas e colocando em seu devido lugar. Gosto de jogos estranhos e diferentes, sabia que ia querer experimentar quando saísse.

O puzzle em si era realmente divertido, tentar encaixar tudo em seus devidos lugares era bem interessante. Pelo menos até a parte em que ele me fazia decidir se um pano aleatório era uma toalha de rosto, um pano de prato ou uma fronha de travesseiro. Mas, enfim, jogar Unpacking foi uma experiência prazerosa por si só.

Unpacking

Eu só não esperava o quanto eu ficaria investido completamente na história do jogo. Na real, eu nem esperava que o jogo realmente tivesse uma história! Podia jurar que seria só uma série de salas, com você tentando encaixar tudo no lugar sem sobrar nada.

Mas não! Diferente disso, Unpacking conta sobre as mudanças de casa de uma mesma pessoa, em momentos distintos da vida. Cada nova casa, cada novo objeto que você tira de uma caixa conta uma parte da história dessa pessoa. Não quero dar spoilers sobre o que acontece, mas se você for (re)jogar, eu convido você a prestar atenção neles. Desde objetos que vão sendo desgastados ou reutilizados em outros lugares até as casas que você encontra e o que elas representam. Tudo em Unpacking ajuda a contar essa história, pincelando a vida dessa personagem de alguma maneira.

No fim, é um pequeno conto sobre as mudanças da vida, que todo mundo passa. Algumas delas trazem coisas boas, outras nem tanto, mas nós corrigimos e seguimos em frente pra começar a próxima. Para quem está passando por um processo de muitas mudanças como eu, não consigo pensar numa mídia melhor do que a interatividade de um videogame pra contar uma história dessa maneira e acho que Unpacking faz um ótimo trabalho.

Uma história sobre descobertas

Enquanto eu pensava em outros jogos que eu poderia usar como exemplos nesse texto, a primeira coisa que veio à minha mente foi a maravilha que A Short Hike fez na minha vida, quando joguei no ano passado. Criado por Adam Robinson-Yu, eu acabei encontrando com o título em uma das semanas de jogo grátis da Epic Games Store e, depois de muitos elogios de alguns amigos, eu decidi experimentar em uma noite onde eu estava cansado, esgotado e com muito medo depois do segundo mês de quarentena.

Eu acho que tive poucas experiências mais felizes com videogame e jogar esse jogo foi uma delas. A proposta, como você pode esperar a esse ponto, é bem simples: você ajuda a pássara Claire a explorar um parque provincial e conseguir subir uma montanha para conseguir sinal pro celular dela.

A Short Hike

Antes de falar da história, eu necessito elogiar o quão gostoso é jogar esse jogo. O movimento, o voo, a exploração, a progressão, as sidequests, o estilo de arte, os diálogos, tudo nesse jogo parece ter sido feito com tanto carinho com o único objetivo de tirar um sorriso do meu rosto. Jogar A Short Hike é muito bom e continuaria sendo um jogo maravilhoso de jogar mesmo sem ser aconchegante como ele é. Mas ele faz isso e ainda consegue aquecer o meu coração.

No fim das contas, esse jogo é sobre uma adolescente que foi empurrada pela tia pra visitar uma montanha num parque por uma semana — e tudo que ela quer é conseguir um sinal de celular. Afinal, que tipo de jovem liga pra uma estadia calma e tranquila numa montanha? Eu já fui um pouco esse tipo de jovem, eu já conheci muita gente que ainda é esse tipo de jovem. Mas esse jogo também é sobre ela (e você) andando pela montanha, conhecendo as pessoas, fazendo amigos, explorando um lugar diferente e descobrindo novas coisas.

Viajar para um parque bonito, conversar com pessoas que estão por aí, procurar conchas na praia, aprender a escalar, pescar em um lago calmo: A Short Hike não tenta mudar o mundo, ele só conta uma história sobre descobrir um lugar novo e te convida a participar dela. Eu fico feliz que esse lugar é incrível, divertido e me fez muito bem em uma semana bem difícil. Não é à toa que entrou na minha lista de melhores jogos de 2020.

Uma história sobre recomeços

Outro jogo que me marcou nesses últimos meses foi Assemble with Care, da britânica Ustwo Games. Originalmente um exclusivo do Apple Arcade e dos mesmos criadores do clássico mobile Monument Valley, esse jogo já estava na minha lista de desejos por muito tempo. Não só por ser um jogo de puzzle, mas também pelo tema: você acompanha Maria, uma conserta-tudo, que chega em uma cidade espanhola procurando coisas para consertar e ganhar uns trocados para aproveitar o festival gastronômico no fim de semana.

Esse jogo me encantou de algumas maneiras diferentes. A primeira delas foi como consertar coisas no jogo era divertido e simples: os puzzles não tinham uma dificuldade muito alta, mas sempre traziam novos elementos e eram bem interessantes. De alguma maneira, era como se eu pudesse fazer as mesmas coisas que o meu pai fazia quando eu era criança; eu me senti com as mesmas habilidades que ele, nem que seja por alguns minutos em um videogame. Eu falo mais sobre isso nesse podcast que fiz sobre o jogo.

Assemble with Care

Mas ao mesmo tempo, a forma como esse jogo apresenta o seu mundinho também é algo que me chamou muito a atenção: todo objeto que valha a pena ser consertado é importante pra alguém. Conforme você vai conhecendo as pessoas da cidade e consertando seus objetos, você vai entendendo os problemas dessas pessoas e o que aqueles objetos representam. Eu sempre fui fascinado pelas histórias que os objetos podem ter e como eles podem representar a vida de alguém (ou de um grupo). Poder, de alguma maneira, dar uma nova vida a estes objetos e começar um novo capítulo para essas pessoas foi algo muito especial.

Nenhuma história era realmente dramática: eram apenas problemas comuns, enfrentados por pessoas comuns. Mas eram algumas que poderiam fazer parte da vida de qualquer um, da criança que gosta muito do seu videogame ao relógio que veio de gerações.

Uma parte de mim queria que esse jogo nunca tivesse fim, que eu pudesse ir pra uma nova cidade, conhecer mais a vida das pessoas e dos seus objetos. Talvez esse jogo não clique tanto com você em comparação ao quanto ele me agradou, mas uma parte de mim queria poder sair por aí consertando coisas e conhecendo histórias tão simples, mas tão aconchegantes quanto as tramas de Assemble with Care.

Uma história sobre peripécias

OK, eu sei que vai parecer meio fora de tom falar desse jogo, mas eu acho que é um bom contra exemplo pra mostrar que esses jogos dos quais agora sou fã não precisam ser só sobre histórias bonitas e íntimas. Até porque eu definitivamente não salvei o mundo em Untitled Goose Game, desenvolvido pela House House e publicado pela Panic. Se você já viu um GIF de um ganso buscando ser a própria encarnação do caos, você sabe de que jogo eu tô falando.

Untitled Goose Game

Eu gosto demais de pensar sobre a reunião em que a ideia desse jogo foi discutida: “e se você pudesse ser o ganso mais escroto da face do planeta?”. E, de verdade, não é que isso é estupidamente divertido!? Por mais que os controles sejam um pouco estranhos e as missões possam ser frustrantes em algum momento, eu joguei esse negócio em co-op com mozão e foi muito, muito engraçado. Era bem interessante como a gente casualmente revezava qual ganso ia fazer a tarefa do jogo e qual ia apenas grasnar para todos os humanos para assustá-los.

Acho que a minha coisa preferida nesse jogo é o comprometimento com a história simples e pura que eles queriam contar. Você é um ganso desprezível que vai fazer o que você tiver a fim de fazer. E é só isso! Ao mesmo tempo, conforme você vai mexendo com a vida das pessoas, vai dando pra entender quem eles são, qual é a relação entre aquelas pessoas e qual a relação delas com os gansos.

É muito bom como todo o conceito do jogo é só um episódio de um desenho antigo como Pica-Pau ou Tom & Jerry: animais destruindo tudo com o mínimo de motivo, enquanto a gente ri bastante. É legal como as tarefas que o jogo te dá não são apenas objetivos, mas servem também para modificar o mundo a sua volta e ajudar a contar a história daquelas pessoas naquela tarde. E o final, que já é mecanicamente muito legal, também amarra bem toda a sua saga em busca do caos absoluto. HONK!

As próximas histórias

De alguma maneira, essas podem não ser as mais comuns nos videogames, mas elas são histórias do nosso mundo real, emoções e momentos que todos nós passamos. Na real, eu me conectei bastante com eles porque eu também estou passando por momentos de mudanças, descobertas, recomeços e a busca pelo caos completo do universo.

Esse texto foi feito como uma forma de falar mais sobre eles, de inspirar mais pessoas a procurar novos tipos de tramas nos jogos que elas consomem. Se você já gosta desse tipo de jogo, talvez você tenha indicações. Se você nunca tinha pensado por esse lado, espero que algum dos jogos aqui te inspire a experimentar algo novo.

Quanto a mim, estou torcendo por um futuro melhor pra todos nós, mas esses jogos que aquecem meu coração não vão ficar longe de mim. Enquanto devem ter muitos outros por aí pra experimentar, muitos outros devem sair no futuro e quero poder ficar de olho neles — como o jogo rítmico sonhador Melatonin, o simulador de cozinha indiana Venba e o puzzle de organização A Little to the Left.

No fim, esses jogos não são sobre salvar o mundo, mas poder experimentar essas histórias salvou uma partezinha do meu mundo quando eu mais precisava. Acho que valeu a pena.