Por mais que agora não faça sentido pra você, pros fins desse texto, eu preciso começar falando que eu nunca fui fã de super-heróis.

O clichê, em si, nunca teve muita graça pra mim. Geralmente, as poucas coisas que eu tive vontade de ler/assistir sobre o tema tratavam de outros assuntos também, como os gostosos almoços que eu passei vendo X-Men Evolution ou o dia que eu decidi ler Watchmen, não entendi nada e li de novo. É só um monte de gente que solta raio pela mão enquanto voa e usa roupas ridículas, no fim das contas.

Entretanto, se teve algo que aconteceu nos últimos anos, foi super-héroi. Mas tipo, MUITO. E não só super-heróis, mas muitos super-heróis juntos numa mesma tela fazendo coisas de super-heróis. As pessoas foram à loucura com o que alguns portais de cultura pop diriam que é o “maior triunfo nerd dos cinemas”, um verdadeiro épico para todos que assistiram e se emocionaram. E outro, mais recente, que não teve o mesmo impacto, nem o mesmo orçamento e provavelmente não a mesma qualidade, mas que também está nos anais da história por um bom motivo.

É uma das diferenças entre eles que me faz entender o porquê eu gosto tanto de crossovers e porque eu gosto tanto de Super Smash Bros.

O maior crossover do entretenimento?

Vingadores: Ultimato tem a maior bilheteria de toda a história do cinema, o terceiro maior orçamento da história pra um filme e conclui uma saga de mais de 10 anos do Universo Cinematográfico da Marvel. São mais de 2 horas da batalha final entre o grande vilão Thanos e o time liderado por Homem de Ferro e Capitão América, mas que também é composto por umas dezenas de diferentes heróis que foram aparecendo nos filmes da empresa na última década. Dizem que é bom, e como eu não me importo o suficiente pra assistir, eu vou dizer que é bom mesmo.

Vingadores: Ultimato

O meu problema com esse filme, principalmente quando ele tava pra sair, era o mundo chamá-lo do “maior crossover de todo o entretenimento”. Eu provavelmente acharia até estranho se fosse mesmo só do cinema ou só do mundo de super-heróis, por causa do que eu considero um bom crossover. Crossover é a ideia, na ficção, de personagens de franquias/séries/produções diferentes se encontrarem em um evento, quase um sonho se tornando realidade. Foi assim com as Tartarugas Ninjas ajudando os Power Rangers, foi assim com Scooby-Doo e a banda KISS resolvendo mistérios e foi assim com o Domingo Legal e o Domingão do Faustão num link ao vivo.

Em tese, os filmes que levam o nome Vingadores são os “crossovers” pros diferentes filmes que a Marvel foi lançando com o tempo, mas meio que esses personagens sempre se encontraram, sabe? Seja em aparições nos filmes, seja por lugares ou objetos em comum, seja pelo fato deles serem sempre influenciados pelos eventos dos outros mesmo sem se encontrarem. Caramba, eles literalmente já fazem parte de um mesmo “universo”.

Por mais que novos personagens são sempre incorporados, não tem o mesmo apelo dos Jetsons encontrando os Flintsones. Não é algo que nunca pudesse existir, mas existe pra que o capitalismo tire mais dinheiro das pessoas. É, inclusive, o contrário: algo planejado desde cedo. Mas, pra mim, não é bem um crossover e nem um sonho se tornando realidade, é só uma grande novela, provavelmente muito boa, sendo contada em partes longas de 1h30.

A solução de uma grande crise

Todos os anos, a The CW, uma das emissoras da Warner nos EUA, faz um crossover anual com os personagens de suas séries de super-heróis da DC (que começou com Arrow e Flash, mas que hoje tem muita coisa e ninguém consegue mais contar). Por mais que os personagens muitas vezes só interajam nesses momentos, tem muito da vibe de Vingadores em ser só mais um momento de encontro, no qual isso não é mais tanta novidade assim. Não era até Crisis on Infinite Earths, a versão televisiva do primeiro arco-reboot da DC nos quadrinhos, feito originalmente (e agora também, convenhamos) pra arumar a bagunça do seu primeiro multiverso.

Heróis em Crisis on Infinite Earths

Caso você realmente queira assistir (como eu fiz, porque gosto bastante de Legends of Tomorrow, a série de super-herói menos de super-herói já feita na história), a ideia é bem parecida da HQ, com uma onda de anti-matéria destruindo todas as Terras e eles tendo que salvar o multiverso. O grande ponto é que Crisis não foi só mais um evento da CW, também não foi só uma forma de tentar terminar a última temporada de Arrow com algum estilo, mas ele foi quase uma homenagem a tudo que a DC já tinha produzido desde então na televisão.

Por mais que só por algumas cenas, você tem o Clark Kent de Smallville; o Robin dos filmes do Batman dos anos 60; o Superman do filme de 2006 voltando, mas adaptando um arco dos quadrinhos que nunca tinha sido visto ainda em tela; uma personagem de Birds of Prey, uma série tão esquecida que ninguém lembra; o Flash da série dos anos 90 que ninguém assistiu é super importante pra trama; trouxeram personagem que nem super-herói é, mas como a DC comprou o quadrinho original, porque não?; e até juntaram os filmes atuais da DC com as séries de TV, coisa que nem a Marvel teve o culhão de fazer com as séries ruins do Netflix que ela mandou fazer.

Ezra Miller e Grant Gustin

Todos esses personagens (e muitos outros que foram aparecendo) não eram esperados por ninguém pra um crossover da CW, mas é como se todos fizessem parte desse problema de uma forma ou de outra, por mais que não faça sentido num primeiro momento. Esse sentimento de um evento que nunca poderia acontecer é o sentimento de um crossover que me anima. A impossibilidade que agora é possível na minha frente me fez pesquisar sobre quem era cada um desses personagens e porque raios eles foram lembrados num momento como esse. No final, foi bem mediana a história em si e Vingadores provavelmente tem mais orçamento, sucesso e qualidade do que Crisis, mas o sentimento de uma coisa improvável e impensável, mas que tava ali, na minha frente, me fez pesquisar por horas a história da DC como um todo.

Everyone is here!

A real é que é esse sentimento de algo único, inédito e imaginativo que um bom crossover pode permitir é que me faz gostar tanto de Smash. Assim como eu não gosto tanto de super-heróis, eu não gosto de jogos de luta ou algo que pareça isso, por mais que ache divertido o caos de jogar Smash. Eu sou incapaz de conseguir dar um hadouken em um Street Fighter convencional, por exemplo. Dito isso, o simples fato de todos aqueles personagens estarem juntos, travando batalhas que nenhuma pessoa com o mínimo de senso crítico poderia dizer que seria verdade, é insano!

Eu cresci jogando Mario, Zelda, Mega Man, Kirby e todos esses personagens. Eles fazem parte do que eu mais gosto de fazer e, de certa forma, me ajudaram a escolher a profissão que eu tenho hoje. Mas, desde sempre, eles faziam parte cada um do seu mundo, com suas próprias histórias. E aí, hoje, eu posso fazer o Pikachu dar um pau no Solid Snake no meio de Hyrule e isso é incrível, sabe? É o tipo de coisa que, hoje, sabendo que a série existe, é fácil imaginar, mas vai dizer pra uma criança nos anos 90 que você ia poder ver o Mario, o Sonic e o Pac-Man lutando no castelo do Drácula que ela ia surtar automaticamente.

Mario, Mega Man, Pac-Man e Sonic

Assim como Crisis acabou sendo um histórico da DC na televisão, Smash é uma grande homenagem à história dos videogames (pelo menos, até onde a Nintendo consegue ter acesso). São personagens que marcaram gerações sendo cada vez melhor representados, em sonhos que não podiam ser realidade antes. E, claro, feito com tanto carinho! Só de ouvir o Sakurai, diretor do jogo, explicando todo o contexto da série de origem de um novo personagem e como fizeram o melhor pra fazer da sua versão Smash a mais representativa possível dele, dá um calor no coração, tanto meu lado jogador, quanto o meu lado designer.

Não são só os bonecos que você vai usar pra dar porrada, mas todas as outras homenagens que são feitas nos modos secundários do jogo, todas as descrições de troféus, todas as representações totalmente obscuras de Spirits, tudo isso junto em um único cartucho, uma única experiência. É algo que, mesmo que eu não saiba jogar direito, me faz perder muito tempo lendo e conhecendo cada vez mais todas aquelas partes que, juntas, formam algo muito, muito maior que o todo, que me arrepia a cada novo DLC anunciado só de pensar que aquela festa ainda vai receber novas pessoas, ainda mais estranhas, mais diferentes e mais improváveis. (sim, eu arrepiei quando anunciaram o Banjo e a Kazooie)

Banjo-Kazooie em Super Smash Bros. Ultimate

Eu posso jogar Smash tão bem quanto gosto de super-heróis, mas é a minha imaginação que me permite ficar tão animado com crossovers — e a minha criança interior não vê a hora dos próximos acontecerem.